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O volume de divisas comercializado no mercado cambial angolano cresceu 288% no primeiro trimestre de 2026 face ao período homólogo de 2025, impulsionado sobretudo pelo aumento da oferta de dólares norte‑americanos. O movimento sinaliza uma recuperação da liquidez em moeda estrangeira, mas levanta também questões sobre sustentabilidade, impacto no Kwanza e efeitos na economia real.
1. O que dizem os números do BNA
De acordo com o relatório de vendas de divisas do Banco Nacional de Angola (BNA), o mercado cambial atingiu, em três meses, vendas superiores a 50 milhões de dólares, contra cerca de 17,5 milhões de dólares no mesmo período de 2025.
Em 2024, o cenário era ainda mais restritivo:
o primeiro trimestre praticamente não contou com fornecimento de dólares,
a oferta foi assegurada sobretudo em euros, num montante equivalente a mais de 21 milhões de dólares.
Ou seja, em três anos, o mercado passou:
de um quadro de escassez de dólares (2024),
para uma normalização parcial (2025),
até chegar a um salto expressivo de liquidez em 2026.
O BNA interpreta este movimento como consolidação da recuperação da liquidez em moeda estrangeira, com alteração do perfil das moedas disponibilizadas ao sistema bancário, casas de câmbio e outras instituições financeiras.
2. O que está a impulsionar o aumento de 288%?
O relatório do BNA é claro num ponto central:
o crescimento foi impulsionado pelo aumento da oferta de dólar norte‑americano.
Esse aumento de oferta resulta de uma combinação de fatores:
Melhor disponibilidade de divisas por parte do Tesouro e do próprio BNA, após um período de forte restrição.
Melhoria gradual das receitas externas, associadas ao setor petrolífero e ao gás, num contexto de estabilização relativa do preço do Brent e entrada de novos projetos.
Reconfiguração da política cambial e monetária, com maior previsibilidade na atuação do banco central e flexibilização gradual do acesso ao Kwanza pelos bancos comerciais, o que lhes permite participar de forma mais ativa no mercado de divisas.
Na prática, o que se observa é um reposicionamento do Estado como fornecedor de divisas e uma tentativa de normalizar o funcionamento do mercado, depois de anos marcados por choques externos, restrições cambiais e forte pressão sobre o Kwanza.
3. Impacto na taxa de câmbio e na inflação
A maior oferta de divisas tende, em teoria, a reduzir a pressão sobre a taxa de câmbio e a contribuir para a estabilização de preços internos, sobretudo em economias fortemente dependentes de importações como a angolana.
Os dados mais recentes indicam:
inflação homóloga em torno de 12,4% em março de 2026, bem abaixo dos níveis superiores a 20% observados em períodos anteriores;
uma trajetória de desaceleração da inflação, associada a uma política monetária ainda restritiva, mas com sinais de flexibilização gradual.
Contudo, economistas alertam que a maior oferta de divisas não elimina automaticamente o risco de depreciação do Kwanza. A flexibilização da política monetária, ao aumentar a oferta de moeda nacional, pode gerar uma ligeira depreciação cambial, ainda que num contexto de maior liquidez em dólares.
Em termos simples:
há mais dólares disponíveis,
mas também mais Kwanzas em circulação,
o que pode manter alguma volatilidade cambial, ainda que num patamar mais controlado.
4. O que significa para empresas e bancos
Para o setor empresarial, o aumento de 288% na venda de divisas tem efeitos imediatos:
Melhor acesso a moeda estrangeira para importação de matérias‑primas, equipamentos e bens de consumo.
Redução de incerteza na planificação financeira, com menor risco de rutura de stock por falta de divisas.
Possibilidade de renegociação de prazos e condições com fornecedores externos, com base numa perceção de maior previsibilidade cambial.
Para os bancos comerciais, o cenário é igualmente relevante:
A maior oferta de divisas aumenta o volume de operações cambiais, com impacto positivo nas comissões e na intermediação financeira.
A flexibilização da política monetária e o aumento do crédito em moeda nacional criam espaço para maior participação dos bancos no mercado cambial, reforçando o seu papel como intermediários entre o Estado, empresas e famílias.
No entanto, este novo ambiente exige melhor gestão de risco cambial por parte das instituições financeiras, que passam a operar num mercado mais dinâmico, mas ainda sensível a choques externos e à evolução do preço do petróleo.
5. Riscos e pontos de atenção
Apesar do tom positivo dos números, há riscos que não podem ser ignorados:
Dependência estrutural do petróleo: a oferta de divisas continua fortemente ligada ao desempenho do setor petrolífero e, cada vez mais, do gás e dos diamantes. Uma queda prolongada nos preços internacionais pode voltar a pressionar o mercado cambial.
Vulnerabilidade a choques externos: alterações na política monetária global, sobretudo nos Estados Unidos e na zona euro, podem afetar o custo de financiamento externo e a disponibilidade de capital.
Risco de complacência: a melhoria temporária da liquidez em divisas pode criar a ilusão de normalidade, atrasando reformas estruturais necessárias para diversificar a economia e reduzir a dependência de receitas petrolíferas.
Além disso, a própria composição das moedas disponibilizadas ao sistema financeiro mudou nos últimos anos, com alternância entre euros e dólares, o que exige atenção à gestão de reservas e à exposição cambial de bancos e empresas.
6. O que isto revela sobre a fase atual da economia angolana
O crescimento de 288% na venda de divisas não é apenas um número impressionante — é um sinal de fase.
Ele indica que Angola está:
a sair de um período de restrição severa de liquidez externa,
a entrar numa fase de normalização gradual do mercado cambial,
e a tentar equilibrar estabilidade de preços, crescimento económico moderado e gestão prudente das reservas internacionais.
Em paralelo, projeções recentes apontam para um crescimento do PIB em torno de 2,5% a 3%, num contexto de inflação em desaceleração e maior previsibilidade cambial—um cenário que, embora longe de ser exuberante, é significativamente mais estável do que o observado em anos de forte crise.
7. O que esperar daqui para frente
A continuidade desta trajetória depende de três eixos principais:
Política cambial e monetária consistente
Manter a credibilidade do BNA,
evitar mudanças bruscas de orientação,
e reforçar a transparência na comunicação de decisões.
Gestão prudente das reservas e da dívida externa
Utilizar a maior oferta de divisas para reduzir vulnerabilidades,
e não apenas para financiar consumo ou adiar reformas.
Diversificação económica real
Transformar a maior liquidez em divisas em investimento produtivo,
apoiando setores como agricultura, indústria transformadora, logística, tecnologia e serviços de valor acrescentado.
Se o aumento de 288% na venda de divisas for acompanhado por reformas estruturais e disciplina macroeconómica, ele pode ser lembrado, no futuro, não apenas como um pico estatístico, mas como um ponto de viragem na normalização do mercado cambial angolano.
