Mercado Cambial em Alta: O Que Significa o Crescimento de 288% na Venda de Divisas?

Por Gil Maia I 22 de Abril de 2026

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O volume de divisas comercializado no mercado cambial angolano cresceu 288% no primeiro trimestre de 2026 face ao período homólogo de 2025, impulsionado sobretudo pelo aumento da oferta de dólares norte‑americanos. O movimento sinaliza uma recuperação da liquidez em moeda estrangeira, mas levanta também questões sobre sustentabilidade, impacto no Kwanza e efeitos na economia real.

1. O que dizem os números do BNA

De acordo com o relatório de vendas de divisas do Banco Nacional de Angola (BNA), o mercado cambial atingiu, em três meses, vendas superiores a 50 milhões de dólares, contra cerca de 17,5 milhões de dólares no mesmo período de 2025.

Em 2024, o cenário era ainda mais restritivo:

  • o primeiro trimestre praticamente não contou com fornecimento de dólares,

  • a oferta foi assegurada sobretudo em euros, num montante equivalente a mais de 21 milhões de dólares.

Ou seja, em três anos, o mercado passou:

  • de um quadro de escassez de dólares (2024),

  • para uma normalização parcial (2025),

  • até chegar a um salto expressivo de liquidez em 2026.

O BNA interpreta este movimento como consolidação da recuperação da liquidez em moeda estrangeira, com alteração do perfil das moedas disponibilizadas ao sistema bancário, casas de câmbio e outras instituições financeiras.

2. O que está a impulsionar o aumento de 288%?

O relatório do BNA é claro num ponto central:

o crescimento foi impulsionado pelo aumento da oferta de dólar norte‑americano.

Esse aumento de oferta resulta de uma combinação de fatores:

  • Melhor disponibilidade de divisas por parte do Tesouro e do próprio BNA, após um período de forte restrição.

  • Melhoria gradual das receitas externas, associadas ao setor petrolífero e ao gás, num contexto de estabilização relativa do preço do Brent e entrada de novos projetos.

  • Reconfiguração da política cambial e monetária, com maior previsibilidade na atuação do banco central e flexibilização gradual do acesso ao Kwanza pelos bancos comerciais, o que lhes permite participar de forma mais ativa no mercado de divisas.

Na prática, o que se observa é um reposicionamento do Estado como fornecedor de divisas e uma tentativa de normalizar o funcionamento do mercado, depois de anos marcados por choques externos, restrições cambiais e forte pressão sobre o Kwanza.

3. Impacto na taxa de câmbio e na inflação

A maior oferta de divisas tende, em teoria, a reduzir a pressão sobre a taxa de câmbio e a contribuir para a estabilização de preços internos, sobretudo em economias fortemente dependentes de importações como a angolana.

Os dados mais recentes indicam:

  • inflação homóloga em torno de 12,4% em março de 2026, bem abaixo dos níveis superiores a 20% observados em períodos anteriores;

  • uma trajetória de desaceleração da inflação, associada a uma política monetária ainda restritiva, mas com sinais de flexibilização gradual.

Contudo, economistas alertam que a maior oferta de divisas não elimina automaticamente o risco de depreciação do Kwanza. A flexibilização da política monetária, ao aumentar a oferta de moeda nacional, pode gerar uma ligeira depreciação cambial, ainda que num contexto de maior liquidez em dólares.

Em termos simples:

  • mais dólares disponíveis,

  • mas também mais Kwanzas em circulação,

  • o que pode manter alguma volatilidade cambial, ainda que num patamar mais controlado.

4. O que significa para empresas e bancos

Para o setor empresarial, o aumento de 288% na venda de divisas tem efeitos imediatos:

  • Melhor acesso a moeda estrangeira para importação de matérias‑primas, equipamentos e bens de consumo.

  • Redução de incerteza na planificação financeira, com menor risco de rutura de stock por falta de divisas.

  • Possibilidade de renegociação de prazos e condições com fornecedores externos, com base numa perceção de maior previsibilidade cambial.

Para os bancos comerciais, o cenário é igualmente relevante:

  • A maior oferta de divisas aumenta o volume de operações cambiais, com impacto positivo nas comissões e na intermediação financeira.

  • A flexibilização da política monetária e o aumento do crédito em moeda nacional criam espaço para maior participação dos bancos no mercado cambial, reforçando o seu papel como intermediários entre o Estado, empresas e famílias.

No entanto, este novo ambiente exige melhor gestão de risco cambial por parte das instituições financeiras, que passam a operar num mercado mais dinâmico, mas ainda sensível a choques externos e à evolução do preço do petróleo.

5. Riscos e pontos de atenção

Apesar do tom positivo dos números, há riscos que não podem ser ignorados:

  • Dependência estrutural do petróleo: a oferta de divisas continua fortemente ligada ao desempenho do setor petrolífero e, cada vez mais, do gás e dos diamantes. Uma queda prolongada nos preços internacionais pode voltar a pressionar o mercado cambial.

  • Vulnerabilidade a choques externos: alterações na política monetária global, sobretudo nos Estados Unidos e na zona euro, podem afetar o custo de financiamento externo e a disponibilidade de capital.

  • Risco de complacência: a melhoria temporária da liquidez em divisas pode criar a ilusão de normalidade, atrasando reformas estruturais necessárias para diversificar a economia e reduzir a dependência de receitas petrolíferas.

Além disso, a própria composição das moedas disponibilizadas ao sistema financeiro mudou nos últimos anos, com alternância entre euros e dólares, o que exige atenção à gestão de reservas e à exposição cambial de bancos e empresas.

6. O que isto revela sobre a fase atual da economia angolana

O crescimento de 288% na venda de divisas não é apenas um número impressionante — é um sinal de fase.

Ele indica que Angola está:

  • a sair de um período de restrição severa de liquidez externa,

  • a entrar numa fase de normalização gradual do mercado cambial,

  • e a tentar equilibrar estabilidade de preços, crescimento económico moderado e gestão prudente das reservas internacionais.

Em paralelo, projeções recentes apontam para um crescimento do PIB em torno de 2,5% a 3%, num contexto de inflação em desaceleração e maior previsibilidade cambial—um cenário que, embora longe de ser exuberante, é significativamente mais estável do que o observado em anos de forte crise.

7. O que esperar daqui para frente

A continuidade desta trajetória depende de três eixos principais:

  1. Política cambial e monetária consistente

    • Manter a credibilidade do BNA,

    • evitar mudanças bruscas de orientação,

    • e reforçar a transparência na comunicação de decisões.

  2. Gestão prudente das reservas e da dívida externa

    • Utilizar a maior oferta de divisas para reduzir vulnerabilidades,

    • e não apenas para financiar consumo ou adiar reformas.

  3. Diversificação económica real

    • Transformar a maior liquidez em divisas em investimento produtivo,

    • apoiando setores como agricultura, indústria transformadora, logística, tecnologia e serviços de valor acrescentado.

Se o aumento de 288% na venda de divisas for acompanhado por reformas estruturais e disciplina macroeconómica, ele pode ser lembrado, no futuro, não apenas como um pico estatístico, mas como um ponto de viragem na normalização do mercado cambial angolano.

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Nota editorial

Este artigo baseia‑se em dados e relatórios do Banco Nacional de Angola, bem como em informações divulgadas por órgãos de comunicação social que citaram o relatório oficial de vendas de divisas e análises de economistas sobre a evolução do mercado cambial e da oferta de divisas em Angola.

Referencias formais:

  • Banco Nacional de Angola — Relatório de Vendas de Divisas, 2026

  • ANGOP — “Mercado cambial regista aumento de liquidez”, março 2026

  • Jornal de Economia & Finanças — análise sobre oferta de dólares, abril 2026

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